quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Apontamentos de dia 28 - #2

Apontamento #2




No passado dia 28 tive a sempre agradável oportunidade de assistir a uma novela da noite da TVI. Não arrisco dizer o nome porque, no meio de tantas, o mais certo era eu dizer que era a "Vai Para a Flor Que Te Leve". Uma oportunidade que se tornou ainda mais agradável pelo facto de ter assistido à dita novela numa televisão sem som.

A determinada altura, deparo-me com uma cena em que entram Alexandra Lencastre (numa invulgar aparição numa novela da TVI) e José Wallenstein, cujo cenário é um gabinete de trabalho. Creio que seria o gabinete da personagem de Wallenstein, segundo me pareceu.

À falta de som, os meus demais sentidos apuraram-se. O olfacto e o paladar ainda estavam nas bifanas do jantar, o tacto também não servia lá de grande coisa... Sobra a visão. Por isso, ouvi com os olhos a conversa que se passava no ecrã entre aquelas duas personagens da novela. Talvez por ter visto o filme Sherlock no dia anterior, estava disposto até a analisar os vários elementos do ecrã numa novela da TVI, em busca de alguma conclusão. E assim foi.

1) Actriz: Alexandra Lencastre;
2) Actor: José Wallenstein;
3) Acção: Conversa intensa, algo entre uma discussão e uma negociação. Há um impasse, uma discordância entre os dois.
4) Cenário: Gabinete de trabalho com a porta fechada, onde só estão Alexandra Lencastre e José Wallenstein.
5) Caracterização: Ambos estão vestidos dentro de um estilo formal, mas não muito formal. Nada de casacos, blazers ou outros adereços incómodos/privadores de mobilidade.
6) Canto superior esquerdo: logotipo da TVI.

Somei, então, todos estes factores, com especial relevância para o último, e o resultado foi que ia haver uma cena de amor, com sedução prévia por parte da Alexandra Lencastre, entre os dois. Senti, desde logo, que aquilo ia acabar numa camisa rasgada e em marcas de baton no pescoço do José Wallenstein.

E não é que, surpreendentemente, um pouco mais tarde, a minha premonição veio a confirmar-se? Desviei os olhos da televisão por momentos e, quando dei por mim, a mesa já não separava os dois actores. Estavam agora de pé, frente a frente, e a Alexandra Lencastre começava a sorrir como ela bem sabe (vale a prática das 632 novelas anteriores onde protagonizou cenas semelhantes)... Não tardou muito mais até que se envolvessem em carícias labiais, encostados a uma parede do gabinete.

Perguntei-me, de seguida, se seriam as novelas da TVI assim tão previsíveis ou se serei eu um perito nas mesmas. Obviamente, afastei a primeira hipótese (não tem qualquer cabimento, onde já se viu dizer que as novelas da TVI são previsíveis?) e, orgulhosamente, sorri perante a minha mestria no assunto.

Ainda assim, sei que posso melhorar. Esta era fácil, visto que o José Wallenstein, para as pessoas que escrevem novelas, compreensivel ou incompreensivelmente (opto pela segunda), é um monstro da sedução. As mulheres caem-lhe nos braços com um estrondo e facilidade semelhantes aos do vocalista dos Squeeze Theeze Pleeze na gala do EuroMilhões. Além disso, ainda falhei alguns pormenores, desta vez. E já que o tema é sedução, começo por aí: não houve tanta sedução prévia por parte da Alexandra Lencastre como eu julgava. Pelo menos, não pareceu tão manipuladora como seria de esperar de uma personagem dela numa cena destas. Outro erro de avaliação: foi Wallenstein o vampiro de serviço que tentou sugar as entranhas da Alexandra Lencastre pelo pescoço, ao contrário do que previ. Sinais do tempo. A moda do Crepúsculo veio para ficar. Ah, e a camisa não acabou rasgada. Não houve dinheiro suficiente para pagar o privilégio de ter na novela um vislubre do peito e do abdómen nus do José Wallenstein. Na verdade, não creio que haja dinheiro suficiente no Mundo para pagar o caché correspondente a tamanho privilégio.

Sou ainda um amador, portanto. Mas, lá está, as novelas da TVI são tão imprevisíveis que não é fácil adivinhar o que vai acontecer... Por isso, continuo orgulhoso do meu trabalho. Além disso, hoje (já dia 31) vi, na mesma (seria a mesma ou uma diferente?) novela, um actor capaz de transformar aquilo que deveria ser um suspiro profundo de mágoa num retumbante ronco. "Não percebo porque é que ela me fez isto... *hrrrrrróónc*" Uma proeza notável.
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Este é o último post do Autocarro Copa D em 2009, o ano do seu nascimento. Está a ser finalizado ao som do "vídeo do ano", a primeira actuação de Susan Boyle no Britain's Got Talent. A ela, à Diana, à Sofy e a quem, mesmo não deixando patente o seu afecto - que, indubitavelmente, sente - por este humilde blogue, o visita, os votos de um próspero 2010. Para o ano há mais blogging e motivos para rir (olha... as novelas da TVI). E para sorrir, esperemos. É o desejo do Autocarro, que haja motivos para sorrir, mais do que motivos para rir. Especialmente se, para rir, estiverem a contar com este blogue...

terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Apontamentos de dia 28 - #1

Apontamento #1



Fui à loja de roupa que dá pelo nome de Desigual. Já lá tinha ido uma vez, mas nessa altura fui "directo ao assunto", tinha umas prendas de Natal para trocar, fui à parte de homem e trouxe todas as peças que eu gostava, entre tudo o que havia. Era época de saldos e com o que tinha para trocar, tinha margem para uma pequenina loucura. Trouxe duas peças. Mas, lá está, olhei e, mal vi algo que até achasse engraçado, fui logo experimentar e quando atingi o valor do que me tinham oferecido fui-me logo embora. Não perdi muito tempo por lá.

Acontece que, ontem, voltei a lá entrar e, desta vez, com duas nuances fatídicas. A primeira: não ia lá comprar nada, entrei por entrar. A segunda: entrei com uma jovem rapariga e ela também não ia comprar nada, só ver como é que aquilo estava.

Ora, como é óbvio, ao entrar femininamente acompanhado, corri a loja toda - e vagarosamente, com tempo para olhar com alguma minúcia a maioria das peças expostas. Grave. Muito grave.

Eu compreendo a filosofia da loja e acho-a até deveras interessante. Mas, como tudo o que urge por ser diferente, a linha entre a genialidade e a foleirice é perigosamente ténue. Na Desigual, há a festiva parte feminina da loja, tudo muito bem. Ao fundo há a parte masculina e a zona infantil, também tudo bem. Mas há um problema: a parte do meio.

Numa loja como a Desigual, é preciso uma sensibilidade estética altamente invulgar para se conseguir andar na parte do meio. É neste meio que a tal linha ténue se faz sentir. Ela troveja sobre os nossos sentidos, para ser mais correcto. E o pior é que não é só uma linha entre o que é genial e criativo e o que é foleiro, mas também uma linha entre o que é para homem e o que é para mulher. É um verdadeiro desafio. Por estar no meio, não sabemos se ainda estamos na parte feminina ou se já entrámos na parte masculina e, sabendo disso, a Desigual goza com a nossa cara de leigos na estética e coloca lá camisas. Uma vestimenta relativamente universal, tanto homens como mulheres gostam de usar uma camisa informal, casual. Mas pior ainda é que a selecção das camisas é cuidadosamente feita para que nessa parte híbrida estejam as camisas menos masculinas que se possam imaginar, mas com um corte desenhado para um corpo de homem. Tornando a parte do meio ainda mais híbrida!

Eu confesso, nunca me senti tão confuso numa loja de roupa. Não sei se o facto de aquela zona estar entre a parte de mulher e a de homem significa alguma coisa relacionada com dúvidas existenciais sexuais, para quem não sabe bem para que lado se há-de virar ou para o Carlos que, duas noites por semana, veste a pele de Carmen num clube recatado... Mas que é um local intrigante, lá isso é. Falo da parte do meio da Desigual, não do clube recatado, bem entendido...

Eis que a minha amiga interveio, talvez apercebendo-se do meu olhar embasbacado, afirmando que aquelas camisas eram para homem. Eu comecei por rir-me, ainda mais convencido que era uma continuação da parte para mulher. Ela insistiu, com um ar mais sério, e eu comecei a ficar realmente confuso. Bem, mas não me considero um inculto. Ainda acho que não é muita gente que, na presença de uma camisa de cores berrantes às bolas vermelho-vivo, consegue perceber que é para homem... Mas quem é que acha que um padrão às bolas (em cores berrantes) entra na indumentária de sonho de um homem?? São estes os "experts" da Desigual? Epá, vão apanhar cavacas.

Mas, para não dizerem que sou muito duro ou que sou preconceituoso, devo ressalvar que é um tipo de camisa que um homem gostaria de usar numa praia do Hawai. Aliás, imaginamos o James Bond a usar algo do género numa praia paradisíaca, enquanto, bebendo uma Piña Colada, vê a sua Bond Girl regressar do banho de mar. No futuro, talvez isto venha a ser possível, mas hoje em dia, por causa desta mentalidade tão fechada que temos, creio que ainda são poucos os homens que se lembram da Desigual e dos seus preços quando pensam em comprar uma camisa para usar na praia. Não faz sentido, eu sei, mas é o país que temos, como se costuma dizer...

No dia em que o James Bond pedir um Martini seco batido, não mexido num casino (em vez da Piña Colada na praia do Hawai), e empunhar a sua lustrosa pistola envergando uma camisa daquelas, podem vir convencer-me que aquilo é para homem. Até lá, não gozem comigo e ouçam as duas dicas que tenho para vos dar. 1) Aquilo que está lá em cima é que é uma camisa Stars & Stripes à cowboy do countryside americano. Aquilo sim. Juntar uns remendos azuis, vermelhos e brancos tentando recriar vagamente tão histórica e clássica camisa... Isso não é nada. 2) Sou adepto da eficiência e acho muito bom que se aproveitem todos os restos de tecido para vender umas camisas e t-shirts que parecem as minhas calças de quando tinha 8 anos e gostava de jogar futebol no cimento e outros pisos mais consistentes do que as calças, fazendo dos remendos o destinatário de uma fatia considerável do orçamento familiar. Ok, vá, ironias à parte, acho, sinceramente, uma boa filosofia criar peças originais usando esse método. Podem, realmente, fazer-se coisas giras assim. Mas tenham dó, não se mete um resto de tecido amarelo com listas brancas na braguilha de umas calças de ganga... Para homem.

domingo, 27 de Dezembro de 2009

E porque não...?


Todos temos grandes acessos de inspiração criativa que nos avassalam com a sua magnitude, na escala de genialidade. Também eu tive um, na noite passada, com uma magnitude de fazer corar Richter e o sismo do passado dia 17. E não envolveu nada relacionado com autocarros, como é habitual. Aaah, se eu e o Zé Manete juntássemos as ideias que já tivemos, fazíamos fortuna... Mas adiante, não se trata hoje de nada ligado a esse veículo dos deuses. Contudo, está relacionado com o segundo grande prazer da minha vida, que é a comida.

Ainda assim, também surpreendentemente, não se relaciona com enchidos, tremoços ou frutos secos. Mas vamos por partes. Começo por falar um pouco de uma fabulosa invenção dos tempos modernos, provavelmente aquela que Leonardo da Vinci mais invejaria, se fosse vivo: o descaroçador.

Tive o cuidado de utilizar uma imagem do descaroçador em plena acção. E logo num ananás. Pode ser um pouco hardcore para as mentes mais sensíveis, bem como para as mais rudimentares, que ainda roem a fruta em torno do caroço. Já agora, alguém se lembra daquele anúncio de uma marca de pizzas em que uma senhora e o seu companheiro se debatiam sobre um ingrediente: mozzarella ou ananás? Ele bradava por mozzarella, ela retorquia com um insistente ananás. Sabem? Não? Bem... Continuando.

Ora, sucede que este extraordinário avanço tecnológico, assim como outros que o antecederam, trouxe consigo uma enorme situação de injustiça e inequidade. E eu não podia ficar indiferente, ou não fosse um paladino da justiça... Rob... Robin? Robin?... Quantas vezes tenho de te dizer para não pores a mão nas minhas pernas? E tem dó, por favor, não sabes que estás a usar calças de latex? Tem vergonha na cara, ou achas que alguém acredita que andas com um iogurte Activia, dos líquidos, nas calças? E não me venhas com as tuas tretas do estômago desregulado, és ou não és um superherói? Espera por mim no BatMobile. Vai. Xô.

Ok, se calhar não quero ser um paladino da justiça e muito menos usar fatos de latex, ainda mais agora que o Sócrates quer esvaziar os armários. "Sair do armário", o Sócrates vai esvaziar os armários... Não sei se o trocadilho ficou claro, por isso assumo a humilhação de ter de o explicar.

Não obstante, a injustiça dos descaroçadores preocupa-me. O motivo é muito simples: há aqui fruta a ser discriminada. Nomeadamente, a fruta que tem pevides em vez de caroços. E isso fez-me pensar:

Porque é que não há-de existir um despevidador?

Esta derradeira, profunda indagação faz-me perceber como o Blogger é limitado. É uma interrogação que merece ser rodeada de luzes à Broadway, ou, quem sabe, à Moulin Rouge. Merece bem mais do que um negrito e um itálico. Ponto a melhorar, por parte do Blogger.

Mas o facto é esse. As maçãs, as peras e até os ananases estão nas suas sete quintas (literalmente... quintas; não tão literalmente... sete). Assim como os seus produtores, pois sabem que as pessoas continuarão a preferir as suas frutas, tendo um descaroçador para as comer e desfrutar do seu saboroso suco com o maior conforto. E os melões? E as melancias? Temos em mãos uma grave assimetria concorrencial. Os frutos com pevides estão a ser esmagados pelo descaroçador. O meu apelo é a que parem de ser metaforicamente esmagados pelo descaroçador e passem a ser literal e apropriadamente despevidados por um despevidador. Para que as frutas sejam igualmente fáceis de comer pelo consumidor e, assim, compitam justamente pelas suas dentadas. Há melões que se querem envolver ardentemente com os ácidos estomacais humanos e não podem. Porquê? Porque a maçã e outras frutas têm um descaroçador!

É a causa do momento. Os próximos passos são poderem juntar-se a ela no Facebook e criar uma petição online, que surte sempre um efeito tremendo na sociedade.

Até lá, podem sempre mandar donativos. Tudo pela causa! Ainda para mais, é Natal...

Dêem vida ao despevidador :: Bring the depevitator to life :: Donnez de la vie au dépévitateur

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Have yourself a merry little Christmas


Está a chegar mais um Natal. Já diria a tia Maria do Rosário, e com toda a sapiência: "O tempo passa a correr, parece que ainda foi ontem o Natal...".

Pois é. É a crua realidade. É Natal de novo e, como tal, é tempo de se dizer e fazer 90% do total de clichês existentes um pouco por todo o Mundo. Fazer e apelar aos gestos generosos, começar a prometer deixar de fumar na passagem de ano, ver como é que vai estar o tempo na Serra da Estrela, escrever posts natalícios no blogue... Ouvir músicas de Natal.

Na rádio e na televisão, começa a ouvir-se aquela percussão típica das músicas natalícias e cantos corais de músicas que toda a gente só se lembra mesmo nesta época. E lá se vai comprar um CD "Christmas Songs", provavelmente dos Il Divo, para pôr a tocar lá em casa. Foi neste espírito natalício que fui recordar alguns dos principais clássicos desta quadra festiva. Mas fiquei-me pelo YouTube. Digam que tenho um coração gelado, mas acho que chega bem para os meus propósitos. E o YouTube tem a vantagem adicional de se poder ouvir a música acompanhada de um videoclip. Vantagem que é empolada quando se trata de um videoclip como o de "Have Yourself a Merry Little Christmas", da intérprete Judy Garland.

A imagem já é sugestiva, mas claro que a mensagem fica muito mais clara no vídeo. Judy Garland não estava a brincar quando quis desejar-nos um pequeno Natal feliz. E haverá mais eficaz modo de transmitir essa mensagem de alegria e felicidade do que através deste vídeo? Através de um videoclip simplista, cuja história se desenrola (bem, na verdade não desenrola grande coisa porque não há história, a única e grande viragem do vídeo dá-se quando Judy Garland subtrai, lentamente, uma peça da sua indumentária - aquele lenço que se vê na imagem, bem entendido) num ambiente obscuro e em que a cantora se faz acompanhar por uma criança, estando ambas com um ar tremendamente enfadonho e tristonho. Admiro a criança. Não deve ter sido fácil fingir um ar tão grandemente triste como aquele. Pensando bem, eu cá acho que aquela criança sofreu. E sofreu psicologicamente. Não é possível fingir tamanha angústia sem haver jogos psicológicos da pior e mais cruel espécie metidos ao barulho.

E chegamos à parte em que o leitor julga que eu estou a gozar com uma aparente incoerência entre a mensagem da música e a mensagem do videoclip. Nada disso. Para mim, tudo bate certo. O que se passa é que a mensagem que Judy queria transmitir não era exactamente "have yourself a merry little Christmas". Era, sim, "have yourself a merry little Christmas, since I'm in the mud". Não compreendo porque é que não optou por este título, mais esclarecedor. Afinal de contas, um título que já leva 33 caracteres distribuídos por 6 palavras também leva 48 caracteres, 1 vírgula e 1 apóstrofo distribuídos por 12 palavras (eu conto I'm como I am)...

Aliás, os últimos dois versos da música são "Until then, we'll have to muddle through somehow/So have yourself a merry little Christmas now". Está tudo dito. Antes do grande final, do grande e memorável desejo de um pequeno Natal feliz aos seus ouvintes, Judy Garland aplica, não por obra do acaso, o verbo "muddle through". O seu significado é algo como deambular, aguentar de pé com alguma dificuldade. Mas certamente haveria outros sinónimos. Este é cirurgicamente escolhido por conter "mud". E, objectivamente, ela partilha uma atitude deambulatória, típica de quem está infeliz e perdido na vida.

Com isto, meus amigos, atinjo o zénite deste meu texto. Judy Garland estava na lama quando escreveu este clássico de Natal. Mas não perdeu o sentido altruísta e o espírito natalício e cantou votos de que o demais Mundo tivesse um pequeno Natal feliz... Já que ela não o iria ter. Mas, com a mania de darem títulos microscópicos às músicas, perdeu-se esta segunda parte da mensagem.

O Autocarro recupera-a e, por mais tardio que seja, dá o ombro à Judy para ela chorar.

O que era escusado era fazer o que quer que tenham feito (e algo fizeram, não tenho dúvidas disso...) àquela pobre criancinha. Afinal de contas... É Natal.

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Sexiness

Cortesia da Sofy e do Eterno Diadema, o Autocarro Copa D recebeu o selo de "blogue sexy". Hesitei entre escrever um "sexy blog" anglo-saxónico, um "blog sexy" soma de anglo-saxónicos ou um "blogue séxi" neologista, mas optei por um misto "blogue sexy". Não gosto do efeito produzido pelas palavras "blog" e "séxi". Não importa se "blogue sexy" é incoerente, meio inglês meio aportuguesado. Blogue sexy eu quero, e blogue sexy será!

Acerca deste honroso galardão, reconheço que não tinha discurso preparado. Como tal, vejo-me forçado a uma torrente espontânea de vocábulos. O que me dá um certo jeito porque já queria voltar a mandar aqui umas papaias, mas ultimamente não tem surgido não só o tempo como também o tema para isso.

Assim sendo, ocorre-me dizer, em resposta à pergunta típica "o que pensa fazer com o prémio?", que esta preciosidade filatélica vai directa para junto do selo da Infanta D. Carlota Joaquina. Cuja sensualidade, aliás, não era inferior ao da pin-up visível no selo de blogue sexy. As armações que usava no cabelo talvez dificultassem ou, no mínimo, tornassem perigosos certos momentos de romance e intimidade, mas isso não lhe retira qualquer mérito.

Hesito, contudo, entre guardá-lo em tão prestigiado local e substituir por ele o selo do imposto do autocarro. Pelo menos enquanto ninguém se lembrar de cobrar imposto por sexiness. Chegará o dia, mas só quando o Primeiro-Ministro não for considerado o sexto homem mais sexy da política.

Curiosamente, perguntaram-me hoje como é que eu conseguia escrever tanto e porque é que não conseguia reduzir os textos, a propósito de um excesso meu num trabalho com limite de palavras, que excedi pela 3ª vez em 3 trabalhos. Creio que a atribuição deste selo dá um bom mote para dissertar - rapidamente, prometo - acerca da minha escrita, parafraseando a resposta que dei aos meus amigos.

Tentei explicar-lhes que não conseguia excluir nada do que tinha escrito. Quando tenho limites, vou cortando muitas coisas e atalhando outras, mas chego sempre a uma altura em que não consigo cortar mais. Aos meus olhos, o texto perde valor e, por vezes, lógica. Vou descarregando fluidamente as ideias que considero pertinentes e escrevo-as usando a forma e as palavras que acho melhores para as transmitir. Tem de ser elaborado e funcional. Artificial e directo. Para tal, torna-se difícil simplesmente fazer um resumo de raíz do próprio texto, como me sugeriram. Quero que as ideias fiquem todas, para o texto ter o máximo de valor e significado (nem que seja só para mim) que eu lhe consigo dar, e cada ideia está transmitida da maneira mais coesa e fidedigna para com o que tenho na mente que eu consigo fazer, coesão que se perdia se tentasse resumir as ideias. E é aquela coesão que faz a ideia ter valor. É um ciclo vicioso, um multiplicador. Chegado a certo ponto, atalhar ideias e eliminar certas expressões é perder o texto. Porque o "eliminável" é geralmente o mais artificial - e é o artificial que dá cor a um texto.

Se explico uma tese, tento construir um asfalto liso que leve o leitor a essa tese. Quando dou por mim, se retiro ideias, passo a ficar com uma estrada de paralelos. O leitor chega ao destino, mas aos trambolhões. Uma ideia complementar ou expressões algo mais artificiais nas ideias principais solidificam a estrada. Homogeneízam e desenevoam a pintura. É assim que os meus trabalhos, regra geral, excedem os limites. Diga-se de passagem que a pequena plateia que me interpelou não ficou lá muito convencida com as minhas explicações...

Já se, como muitas vezes acontece neste blog, pego em duas ou três ideias soltas que queria passar para um texto leve, começo a divagar. Invento relações dessas ideias com novas ideias, e dessas novas com outras, numa espiral que, assim houvesse tempo, não teria fim. É a divagação aquele artificial que enriquece o texto. Não desenevoa nada (às vezes, faz o contrário), mas é o inesperado que surpreende e mantém um certo véu do mistério sobre a ideia principal. Sim, que pode sempre existir uma linha de raciocínio patente mesmo num texto que surgiu de um conjunto de ideias soltas.

A linha de raciocínio está lá, e (res)surge nos momentos mais surpreendentes. Quando já parecia esquecida, ultrapassada ou simplesmente desvanecida.

E assim se obtém um texto sexy.

Ainda que, por força das circunstâncias, as divagações deste tenham sido menos coloridas e mais descritivas e secantes do que é desejável.

À Sofy, a retribuição do reconhecimento de blogging sexiness.

À Leopoldina, um tão surpreso quanto típico "estás tão crescida desde a última vez que te vi!".

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A Nereida de Virgílio


Não, não é um post sobre a Nereida. Descansem. Não se trata disso, por muito que a virilidade seja um requisito obrigatório de um motorista, ficando somente atrás do camionista. Mas só porque as empresas de transportes públicos não permitem que penduremos calendários Pirelli e páginas centrais da FHM no vidro. O sindicato (claro que há um sindicato para os motoristas, como podia não haver?) já tentou explicar milhares de vezes que um vidro daquele tamanho serve para alguma coisa, mas eles parece que não entendem!

Mas, retomando a ideia inicial, claro que não vamos enveredar por caminhos duvidosos neste casto blogue. Aliás, não imaginam o trabalhão que deu encontrar uma fotografia da senhora envergando uma quantidade de tecido moralmente aceitável. E não, não é a mesma coisa. A Cláudia tem muito mais classe.

Agora que usei o adjectivo "casto", podia fazer mais uma inevitável divagação e escrever umas linhas conectando os trabalhos fotográficos da modelo e actriz francesa Laetitia Casta e a definição de "castidade" do dicionário (cito: "Abstinência total de pensamentos, palavras e obras sensuais."), mas vou abster-me, usando um verbo adequado, de o fazer. A verdade é que este post surge inspirado por um trocadilho absolutamente divinal. O mais magnífico que ouvi nos últimos tempos.

Um senhor responsável por um quiosque, querendo explicar que o livro que acompanhou a última edição do Expresso foi a Eneida, de Virgílio, afirmou convictamente que era não a Eneida, mas sim a Nereida que vinha com o dito jornal. Lembro-me de ter pensado duas coisas: 1) "Hmm... Desconhecia esta (pequena) mudança da linha editorial do Expresso." ; 2) "Você não disfarça nada as suas leituras, meu bom homem... E leituras é como quem diz, não é verdade?..."

É certo que a comicidade deste trocadilho resulta não só da tenra idade do dito senhor, do seu esbelto bigode, do ar sério e decidido com que fez a dita afirmação nem mesmo da ligação de uma namorada de Cristiano Ronaldo a uma obra épica de um íntegro e respeitável escritor do século I a.C.. Sim, é certo que a obra não foi mais do que propaganda encomendada pelo Imperador César Augusto, mas Virgílio não deixa de ser íntegro por isso. Era escrever ou ser atirado aos leões, por isso creio que fez uma boa opção. Ainda que nada altruísta. Toda a gente sabe que o povo gosta mais de ver leões deliciando-se com um bom petisco humano do que de ler um livro.

Mas, dizia eu, a comicidade resulta também do próprio nome: Nereida. Tem uma sonoridade... cómica, simplesmente. Funciona. É como "jacaré". São palavras que, se estivermos num stand-up e já não fizermos a mínima ideia do que dizer, fazem magia. E é um nome "divagável". Percebe-se que não é apenas um nome, como Letizia, por exemplo. Percebe-se que deve significar algo. E, pensando assim, antes de ir à Wikipedia, ninguém sabe bem o que será uma Nereida. Será que se pesca uma Nereida? Será que encontrar uma nota de 20 euros no chão é uma Nereida? Será que se vendem Nereidas na praça? Será que dá para fazer música com uma Nereida? Este nome, meus amigos, é plasticina pura! É de uma versatilidade imensa. A Nereida, meus caros, é o que um homem quiser. Desde que ele seja um futebolista de topo, claro.

Fui, então, à gloriosa Wikipedia e descobri que as Nereidas eram, na verdade, as ninfas filhas de Nereu e Dóris, na mitologia grega, e que ninguém sabe ao certo se eram 50 ou 100. É o que os advogados chamam de dúvida razoável. É compreensível que se dê uma margem de dúvida, afinal de contas estamos a falar de uma insignificante diferença de 50 ninfas. E, pasme-se!, elas surgem desnudadas na maioria das gravuras, por entre golfinhos e nenúfares (nenúfar - outra palavra infalível).

Essa maravilhosa biblioteca digital informa-nos ainda que Nereida é igualmente o nome de um satélite de Júpiter. Resolvi partilhar essa informação com o meu colega dos turnos da madrugada, o Zé Antunes. Ao que ele, ensonado, me resmungou bruscamente uma frase qualquer que me pareceu incluir algo como "os satélites da espanhola".

Beijos, abraços e Nereidas a todos.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Post linguado


"A verdadeira riqueza de um povo está na sua gramática."
Fernando Pessoa

Inspirado pelo parto feliz de dois bebés blogues (It's Bliss | A MaFia Feminina), de duas assíduas passageiras do Autocarro, decidi forçar o regresso da escrita a este espaço. Não tinha nada de mais sobre que escrever de momento, mas tinha algumas ideias na gaveta, esperando o vislumbre do teclado. Atendendo ao motivo que me levou a querer antecipar o novo post, achei que um bom tema seria justamente... a escrita. E, sim, uma das ideias na gaveta tinha a ver com este tema.

Comecei com uma citação de Fernando Pessoa. Epá, que o homem era louco já todos sabemos de ginjeira. Mas afirmar que a riqueza de um povo está na sua gramática... Desde quando é que botar faladura nos enriquece? Empobrece os pulmões e, em muitos casos, a reputação social do emissor. Creio, aliás, que a segunda parte é o que me está a acontecer neste momento. Convenhamos também que esta é uma citação que revela bem o pessimismo de Pessoa em relação ao seu país. Certamente foi escrita na sua fase decadentista, em que só falava de coisas tristes e a alma lhe doía (ainda mais do que o normal) constantemente. De facto, dizer que a riqueza de um povo está na sua gramática é passar um atestado de pobreza a Portugal. Vá lá, Fernando... Eu sei que passaste a infãncia na África do Sul, o que te fez perceber desde menino os atrasos de Portugal, mas também... não somos assim tão maus. Não era preciso fazeres passar a imagem de que somos pobres.

Reparo, ainda, que esta definição de Pessoa entra um bocado (só um bocado) em conflito com as definições do "Pai da Economia" Adam Smith, na sua obra-prima An Enquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações). Há quem prefira, por motivos que me são perfeitamente ocultos, chamar-lhe apenas A Riqueza das Nações. Mas reparo que há, de facto, divergências entre Pessoa e Smith na definição de riqueza - divergências aos meus olhos inexplicáveis. Ok, é certo que, em termos actuais, um seria o que hoje se pode chamar um emo-hippy-nerd (que combinação genial) e o outro um queque, apesar das suas mui viris origens de pastor. Não sei se terá algo a ver com isso. Mas continuo a achar estranho. Desde quando é que um economista e um poeta/um artista têm visões diferentes do mundo? O Manuel Alegre até ajudou o Cavaco Silva a ganhar as últimas presidenciais logo à 1ª volta, ao dividir o PS, e tudo...

Mas o efeito que a citação de Pessoa teve em mim foi o de me fazer reflectir sobre a escrita e a língua. E concluí que Fernando Pessoa, se ambicionava defender e sensibilizar para a importância da correcção gramatical e da erudição linguística como parece querer fazer na dita citação, disse uma parvoíce de todo o tamanho. Deixa lá, Nando, acontece a qualquer génio. Não é preciso escreveres dez poemas tristes sobre isso. Vá lá, não comeces com essa cantiga do choro perfurante da alma. Vamos afogar essa alma mas é com umas bejolas ali n' O Martinho da Arcada.

Afinal o que é, então, "língua"? Além de "órgão móvel da cavidade bucal" (deixemos de parte definições de cientista), "língua" é um "sistema de comunicação comum a uma comunidade linguística". Eu deturparia um pouco esta definição e diria que é uma maneira de as pessoas se entenderem entre si. Vá, talvez esta não seja a definição, mas sim a finalidade da língua: o entendimento mútuo.

Daí que Pessoa tenha dito uma parvoíce de grandes proporções. Mas quem era ele para dizer aquilo, se ninguém percebia pitada do que ele queria dizer? Ou, usando uma expressão - lá está - mais acessível: ninguém percebia um corno das papaias que ele para ali mandava naquelas rabichices, os poemas ou lá ó raio que era.

De facto, Pessoa era um sem-abrigo em termos linguísticos, de acordo com a sua própria teoria da riqueza (quão altruísta da parte dele). O que se pode chamar de Belmiro de Azevedo é o Hi5 e sítios afins onde toda a gente se entende: isso sim, é uma língua. Rendo-me à superioridade da linguagem Hi5. Confesso que já ambicionei vezes múltiplas converter-me a tal dialecto, mas tenho de reconhecer: sou um incapacitado. O melhor que já consegui aprender foi duas palavras homónimas, das tais que se lêem e escrevem da mesma maneira, mas têm significados diferentes. Passo a partilhar a minha aprendizagem:

a) "tou c 1a comixão ka num xitio k eu ka xei k n m aguentu"
b) "ja dei a minha xugestão a comixão d praxes"

Reparem na palavra "comixão", aplicada na frase a) na sua dimensão semântica de "sensação incómoda", "prurido" e na frase b) como "aglomerado de pessoas com funções de decisão, gestão ou estudo". Até pareço estar no bom caminho, mas a verdade é que as minhas capacidades não passam disto. Serei um pobre linguístico para sempre.

Repare-se ainda que agora existem as "Moedas Hi5", com as quais podemos adquirir artigos tão fenomenais como um "saco de cocó em chamas" ou um "furão com balões" (o primeiro existe mesmo, o segundo inventei-o, mas, se não existe, vai existir em breve). Uma clara tentativa de, na linha da citação de Pessoa, introduzir moeda/riqueza num contexto linguístico.

Posto isto, exorto todos a dar ao português "diferentemente" falado e escrito (há quem diga mal falado e escrito... Preconceituosos, digo eu!) e à linguagem Hi5 (o caso mais... especial do português diferentemente falado e escrito) o valor que merecem. Porque essas sim, são línguas a sério, inteligíveis pela larga percentagem das pessoas. Por algum motivo o Hi5 tem milhões de utilizadores e o Autocarro menos de meia dúzia de crentes... Já pensaram nisso? Porque outro motivo haveria este blogue de ser menos popular do que o Hi5?...

Espero ainda que um dia se leia na escola os comentários trocados entre o Xefe Djjioguinhuu e a JúLiÁnNáÁZóúÚúNaÁh no Hi5 em vez dos poemas de Fernando Pessoa. Verdadeiros artífices da linguagem e da gramática.

Que as ilustrações sejam os cartazes a informar que "À caracóis" ou que "Vêndesse melões". Que os partidos políticos sejam "krews". Bem, isso de certa maneira já são, visto que "krew" é um termo associado a um grupo de pessoas que, por vezes, executa actividades de legalidade duvidosa.

Bjx ffx a tdx. ***

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

A carga pronta e metida nos contentores


Vem aí mais um ano escolar. E, claro, o Autocarro não podia ficar indiferente. Pelo menos até dia 27 de Setembro, felizmente temos uma ministra que faz da educação um tema apetecível para as conversas de autocarro. Uma ministra que, sempre revelando grandeza de espírito e a "delicadeza" preconizada por Sócrates, vem afagar as mágoas dos pais e professores que pensam que os seus filhos/alunos são uma carga de trabalhos... Eis que a ministra vem dizer que, para o Ministério, os jovens são mesmo uma carga. É verdade. Este ano, em parceria com Mário Lino, Milú presenteia-nos com escolas pré-fabricadas. Há escolas no percurso do Autocarro, por isso já todos devem ter reparado na invasão de contentores pré-fabricados que se multiplica por muitas das escolas do país. E não, não servem apenas para embelezar o recinto escolar. Eu sei, eu sei, são um ornamento de sonho. Mas, acreditem ou não, esse não é o propósito essencial deles. Na verdade, é ali que vão ser dadas as aulas.

A justificação mais recorrente para este choque tecnológico nas escolas prende-se com a falta de condições das mesmas. Sobrelotação e problemas na canalização são as falhas mais apontadas. Eu tenho cá para mim que tudo não passa de uma manobra de marketing. Metem-se os contentores à pazada para dentro das escolas, dão-se as aulas lá dentro... Tudo para atrair alunos para as Novas Oportunidades! É marketing no seu estado mais puro e genial. Mas alguém acha que a Milú é estúpida ou quê? Tudo está previamente pensado. Sabendo-se que uma boa parte do target das Novas Oportunidades se encontra no ramo da construção civil, toca a fazer as escolas mais acolhedoras e atractivas para esse mesmo target. E nada mais acolhedor do que um desses contentores habitualmente vistos nas obras. Os das escolas só pecam por estar (por enquanto) muito asseados. O Zé Ramos, que me costuma fazer umas reparações em casa, não gostava muito da escola, ficou-se pelo 9º ano e tem prazer em trabalhar na construção. Mas se agora a escola é fazer o 12º num punhado de meses com aulas num contentor pré-fabricado... Bem, isso muda tudo. Só falta o calendário da Pirelli numa das paredes do contentor para ser perfeito.

Por outro lado, gera-se uma concorrência atroz no que toca a quem trabalha num contentor pré-fabricado. O agente imobiliário pensava ter o monopólio da venda, num pré-fabricado desses, de coisas a preços mais altos do que as pessoas estão dispostas a pagar. Mas agora chegam os professores. Ambos tentam vender o seu peixe, com baixa probabilidade de sucesso.

Mas voltando ao tópico das más condições das escolas. Convenhamos que, com os contentores, há, sem dúvida, melhores condições. De facto, é um mimo ter aulas em contentores que anulam todo o espaço exterior que pudesse existir para recreio ou mesmo estacionamento. No entanto, há potenciais problemas de saúde que subsistem (não obstante as evidentes melhorias das canalizações que o uso dos contentores permite): por exemplo, os produtores e vendedores destes contentores terão o seu recto exposto a tintas potencialmente perigosas, ao limparem o mesmo a notas das mais diversas quantias de euros - coisa que certamente não perderão a oportunidade de fazer, afinal de contas nem tão cedo se volta a conseguir um negócio destes. Ainda por cima o dinheiro dos contribuintes tem algo particularmente especial e chamativo, que ninguém consegue explicar. Uma oportunidade a não perder, de facto.

Entretanto, as escolas, algumas com idade, traços arquitectónicos, locais interiores e exteriores dignos de património, que contam histórias sem fim, são fortemente remodeladas... por causa das canalizações, que só contam histórias de merda... literalmente. Não negando a importância da qualidade nas canalizações, convenhamos que não deixa de ser duvidoso se toda esta parafernália pré-fabricada se justificará mesmo...

Mas nem tudo é mau. Se já temos um "plano nacional para a matemática", os contentores são, por sua vez, uma grande oportunidade para os alunos de Artes (e não só...) expressarem essa força criativa que guardam dentro de si e que sempre anseiam por libertar. Aquelas paredes branquinhas, ainda por cima postas em escolas, estão mesmo a pedir uns graffiti. Mas alguém acha que a Milú é estúpida ou quê? Tudo está previamente pensado. Até os professores hão-de fazer uma perninha, transformando algumas dessas paredes em verdadeiros quadros transbordantes de admiração por personalidades como a sua própria patroa, a nunca raras vezes mencionada Milú. Será difícil conter tanto afecto.

Compreende-se porque é que não se optou por uma solução como fazer as obras em simultâneo com a actividade escolar, apesar de ser mais barato e ser provavelmente menos constrangedor para a comunidade escolar, apesar dos inconvenientes. Havia esse perigo horroroso de os alunos conviverem com profissões como trolha ou canalizador. Os alunos terem sequer o mínimo pensamento de seguir uma profissão dessas - das que toda a gente goza nas conversas com amigos, e que terminam sempre com o reconhecimento geral de que, sem esses profissionais, a sociedade não funcionava - é algo que entra nos sonhos mais atemorizantes dos nossos não menos atemorizantes governantes. Seria terrível se estes pequenos génios (que são todos génios, sem excepção) pensassem sequer em desperdiçar toda a sua capacidade intelectual (que todos têm elevadíssima, sem excepção) numa profissão daquelas. Os contentores vêm, portanto, matar dois coelhos de uma cajadada: 1) ao evitar-se a simultaneidade das obras e das aulas, não há misturas entre os "menos qualificados", esses seres viscosos e claramente inferiores, e os alunos de hoje, que têm de ser os doutores de amanhã (quando digo amanhã, praticamente é mesmo amanhã, pelo meio das Novas Oportunidades e essas coisas...); 2) os contentores impedem o crescimento de ervas, evitando o actualmente inevitável chamar de um outro tipo de ser viscoso, o "menos qualificado" jardineiro. Mais ainda, tudo isto é também uma maneira de atrair estes ainda "menos qualificados" para as escolas e as suas Novas Oportunidades, trazendo-os para essa sagrada luz das habilitações. Volto a dizer: uma brilhante manobra de marketing, de fazer inveja a qualquer Super Bock ou Coca Cola. Aposto que até vão fazer uma caça ao tesouro nas canalizações para os canalizadores, onde, por acidente, surgem vários panfletos reluzentes e fluorescentes das Novas Oportunidades. E tudo isto sem pôr em perigo as jovens cabeças dos alunos, postos em quarentena em pré-fabricados para evitar que se desviem do caminho divino.

Mais ainda: qualquer olhar perspicaz vê que isto se enquadra na perfeição no Choque Tecnológico. Vindo deste governo, só uma vista incauta pode esperar que estes contentores sejam uns barracões. Por dentro, certamente são pequenos centros de alta tecnologia: Magalhães para todos, quadros interactivos, uma Bimby a varrer as aparas dos lápis dos alunos mais famintos por sabedoria, a tal ponto que nem querem perder tempo a ir ao caixote do lixo e afiam os lápis mesmo na carteira, por muito que lhes doa na alma sujar o chão... Ah, e a varrer também os aviões de papel que vão sendo atirados... Esperem. Algo está mal... Aviões de papel? Que estupidez, já não há disso, agora joga-se Batalha Naval em rede pelos Magalhães. E os mais jovens jogam Counter Strike. Bem, seja como for, claramente que estes aparentemente miseráveis contentores escondem o Choque Tecnológico na sua génese mais pura. Mas alguém acha que a Milú é estúpida ou quê? Tudo está previamente pensado.

Aaah, Milú, Milú... Sempre a surpreender-nos com este humor de fino recorte. E tu também, Zé. Fazer o choque tecnológico num contentor pré-fabricado é algo que não lembraria nem aos Monty Python. Mas tem a sua lógica. Enquadra-se no sonho do Portugal futuro que alguns têm: incapacidade para raciocinar, criar e construir; obter tudo pré-fabricado. E são as gerações vindouras a carga destes contentores. Em Alcântara, já se quer triplicar a capacidade para os guardar...

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

A salsicha do vizinho


Não, não vou fazer promoção ao novo álbum desse grande artista nacional, ainda que a imagem e o título do post assim o sugiram. Vou, porém, falar de peixe, salsichas e de vizinhos. E de mais uma daquelas situações do quotidiano que acontecem a todos. Uma das mais frustrantes, certamente.

Falo daqueles dias de calor, em que abrimos as janelas para arejar a casa e, naturalmente, os vizinhos fazem o mesmo. E em que é que isto resulta? Resulta em dias de sofrimento penetrante, de uma árdua jornada no deserto, de um carregar da cruz e nela ser cravado pela força acutilante de pregos martelados pelo olfacto. Dias em que, por força das preocupações com a saúde e com a linha (afinal de contas, está calor e queremos parecer bem nas piscinas e praias), decidimos cerrar os dentes e os punhos, cravar as unhas nas palmas das mãos, virar a cara à gula e fazer um peixinho cozido com batatas igualmente cozidas e mais uns vegetais para o almoço. Dias em que, enquanto nós cerramos os punhos, o vizinho decide que é "o dia do ano" em que vai esfregar as mãos. E não é que, pelas janelas que ficaram abertas, nos chega o cheiro mais delicioso que poderia invadir os nossos narizes naquele momento? Não é que, quando já nos mentalizámos para comer uma refeição tão saudável quanto sofrível ao paladar, o vizinho decide que é "o dia do ano" em que vai esquecer as ordens do médico e fazer um churrasco com uns frangos, uns bifões, salsichas, chouriças e sabe-se lá que mais para gozar com a cara de quem fez uma opção triste para o seu almoço? Um churrasco, meus amigos, um churrasco! Que o cheiro dos grelhados é mais intenso. Não podia ser um simples frango no forno. Nããão, nada disso. Tem logo de desenterrar o barbecue, só para provocar os vizinhos!

Nas vivendas com quintal ainda é o menos. Ao menos podemos ver a cara do vizinho para podermos odiá-lo como deve ser. E, se formos mesmo maquiavélicos, respondemos dizendo que, por "coincidência", aquele é o dia do ano em que decidimos tratar da relva do quintal e de polir os duendes de enfeite (não sei quanto a vocês, mas na minha vivenda de sonho há duendes a ornamentar o jardim). Tudo para sacar uma costeleta do barbecue do vizinho, que, complacente com o aborrecimento da nossa tarefa, e já que, acidentalmente, estamos ali mesmo ao lado, convida-nos para saborear um dos seus grelhados.

Já nos prédios é mais complicado. Não sabemos bem qual dos sacanas é que decidiu cometer aquela atrocidade e dificilmente conseguimos vislumbrá-lo para podermos praguejar maledicências. Tudo é frustração. O nosso almoço é pior e não podemos mirá-lo de forma autoritária, enquanto fazemos um exercício mental de criatividade para o insultar. Sim, que sabe bem mirar as pessoas dessa forma, mesmo que não seja para as confrontar. Os condutores bem o sabem. Quem é o anjinho que resiste a lançar esse olhar pela janela do passageiro para o palhaço que estamos finalmente a ultrapassar, depois de nos ter feito andar a 50 durante centenas de metros. Há poucas coisas mais libertadoras do que conhecer a cara de um imbecil e mirá-la com ar enfurecido. E é justamente o que não conseguimos fazer com o imbecil do prédio que decidiu fazer o churrasco no nosso dia de contenção alimentar. Depois admiram-se que haja tensão nas reuniões de condomínio. Que façam sujeira nas zonas comuns e que metam a publicidade na minha caixa de correio ainda posso aceitar, agora fazer churrascos nos dias de batata cozida... Isso é mais do que um só frágil humano pode suportar.

O que gente assim merecia era uma coisa que eu cá sei, e que envolve as fagulhas do barbecue.

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

O país às cores - 2ª parte


Este post é a continuação do post de baixo, para quem não olhou para o título, ou para quem olhou mas pensou que haveria uma outra razão para a "2ª parte" que não envolvesse um post anterior. Falava dos peritos da Área 51 a trabalhar na Protecção Civil e do seu espírito artístico, que os leva a mostrar um Portugal colorido de amarelo, laranja e, ocasionalmente, verde. Já é uma contribuição para a confiança dos portugueses. Ao menos, não mostram o país cinzento ou negro. Ou castanho. Dizem estatísticas europeias que somos um dos povos com mais optimismo e alegria. Tal só pode ser explicado pela Protecção Civil e o seu Portugal colorido.

Mas o que está em causa é a emissão de "alertas". E, convenhamos, ainda bem que a nossa Protecção Civil se fica por cá. Não que seja propriamente muito benéfico para nós, simplesmente só posso imaginar os problemas que haveria se se desse como que uma diáspora da Protecção Civil portuguesa. Dou apenas dois exemplos.

Imaginem o perigo geopolítico que constituiria uma ida dos nossos técnicos dos alertas para a Rússia. Mal eles vissem as temperaturas de 30 graus negativos na Sibéria, até inventavam uma cor nova para o alerta que iriam lançar. Seria terrífico. Provavelmente colocavam até o país em estado de emergência, entre recomendações para os siberianos se deixarem deglutir por ursos polares... Mas com cuidado para não deixar o branquinho rasgar as várias camadas de roupa. O pêlo do urso já não é mau, mas para 30 graus negativos só indo para dentro dele com muita roupa. Nunca fiando.

Mas, pior que isso, seria o Kremlin a ouvir alguém nem que fosse sussurrar "estado de alerta". Se fosse "estado de emergência" então... Era uma vez o gás natural na Europa. Mas, como na Natureza nada se perde, tudo se transforma, desaparecia o gás natural, mas ressurgiriam uns milhares de Kalashnikov vindas das proveniências mais impensáveis. E não havia Obama que valesse à diplomacia. Se a Mother Russia está em alerta, o Kremlin está-se pouco lixando se o presidente do E.U.A. joga basquetebol ou golfe. E assim uma nova Guerra começava, graças aos portugueses. Aliás, graças a portugueses cuja única arma que sabem empunhar é aquele apontador (muito imponente, contudo - é quase um ceptro) com que pensam estar a indicar as massas frias e quentes e as ondulações. Que não interessam nem à tia-avó de Seia que faz camisolas de lã para a família. (repararam como eu me esquivei ao facto de desconhecer se o termo correcto era tricotar, bordar ou outro qualquer?)

E se os nossos amigos trabalhassem na Austrália? Bem, atendendo ao seu... zelo, suponho que lançassem alertas múltiplos à população por motivo de marsupiais na época do acasalamento. Sem esquecer os furões. Mas os marsupiais são particularmente preocupantes. Isto porque possuem um deveras misterioso pénis bifurcado (não, não me refiro a dois homens de barrete ou a um homem de barrete nada esquisito nas suas opções sexuais confrontando um bovino de largas proporções) que pode apanhar alguma população desprevenida. Claramente, um caso para recomendações para Protecção Civil. Nunca se sabe quando os bichos vão alargar os seus horizontes procriativos. Se já alojamos gripes aviárias e porcinas... O melhor é prevenir, não vá o diabo tecê-las. Ou o Belzebu, como prefiro chamá-lo. Não sei porquê, tem um impacto cómico superior a "diabo". Talvez tenha a ver com o facto do português ter em si a arte inata da rima.

É muito grande o apelo a citar aqui o primeiro parágrafo do capítulo sobre "Reprodução" da página da Wikipedia sobre os marsupiais, onde descobri esse extraordinário pormenor distintivo do marsupial face à que considero ser a larga maioria do Reino Animal, mas achei que seria melhor deixá-lo lá ficar sossegado. Considerei que era deleite a mais para o leitor juntar um tão magnificamente descrito momento National Geographic a este blogue. Mas, para os que julgam que usar as palavras "pseudovaginal" e "escroto" no mesmo parágrafo, e ainda acrescentar a informação da existência de um pénis bifurcado, é obra de um Camões da sexualidade animal, confiram na Wikipedia como Camões sabe usar um computador. E, para os que julgam que esses feitos estão reservados a quem espera fazer piadas fáceis usando vocabulário sexual hardcore e explorando compleições sexuais insólitas como a do marsupial, confiram como isto pode ser conseguido num contexto de seriedade e cientificidade. O mesmo não posso dizer de mim.

Mas pondo agora de lado a ideia da emigração da nossa Protecção Civil, para bem dos povos alheios: se um dia atravessarmos uma verdadeira situação de crise, meteorológica ou outra, que cor terá o alerta para que faça perceber os portugueses da seriedade da situação? Se aguaceiros motivam alertas amarelos e laranjas, suponho que os vermelhos estejam reservados para pequenas tempestades. E quando vier um furacão a sério, que alerta emitir? Ou, como já disse, mesmo que não seja por motivos meteorógicos, que alerta emitir para transmitir seriedade e, portanto, não se confundir com estes dos chuviscos? Alerta vermelho aos peixinhos amarelos? Não, faz lembrar os boxers da Throttleman. Alerta negro às listas diagonais bordeaux? Requintado demais. Alerta cor de burro quando foge? Parece-me a hipótese mais viável. Esperemos que chegue para que as pessoas enfrentem a crise com um pouco mais do que um protector solar e garrafas de água ou indo buscar ao armário quantos casacos lá existam e ainda a camisola de lã feita à mão pela tia-avó de Seia, guardada no sítio mais recôndito do armário mais recôndito da casa, devido ao seu valor sentimental. Apenas por isso é tão ocultamente guardada, e não por qualquer outro motivo, eventualmente algum relacionado com a estética do objecto.