quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A salsicha do vizinho


Não, não vou fazer promoção ao novo álbum desse grande artista nacional, ainda que a imagem e o título do post assim o sugiram. Vou, porém, falar de peixe, salsichas e de vizinhos. E de mais uma daquelas situações do quotidiano que acontecem a todos. Uma das mais frustrantes, certamente.

Falo daqueles dias de calor, em que abrimos as janelas para arejar a casa e, naturalmente, os vizinhos fazem o mesmo. E em que é que isto resulta? Resulta em dias de sofrimento penetrante, de uma árdua jornada no deserto, de um carregar da cruz e nela ser cravado pela força acutilante de pregos martelados pelo olfacto. Dias em que, por força das preocupações com a saúde e com a linha (afinal de contas, está calor e queremos parecer bem nas piscinas e praias), decidimos cerrar os dentes e os punhos, cravar as unhas nas palmas das mãos, virar a cara à gula e fazer um peixinho cozido com batatas igualmente cozidas e mais uns vegetais para o almoço. Dias em que, enquanto nós cerramos os punhos, o vizinho decide que é "o dia do ano" em que vai esfregar as mãos. E não é que, pelas janelas que ficaram abertas, nos chega o cheiro mais delicioso que poderia invadir os nossos narizes naquele momento? Não é que, quando já nos mentalizámos para comer uma refeição tão saudável quanto sofrível ao paladar, o vizinho decide que é "o dia do ano" em que vai esquecer as ordens do médico e fazer um churrasco com uns frangos, uns bifões, salsichas, chouriças e sabe-se lá que mais para gozar com a cara de quem fez uma opção triste para o seu almoço? Um churrasco, meus amigos, um churrasco! Que o cheiro dos grelhados é mais intenso. Não podia ser um simples frango no forno. Nããão, nada disso. Tem logo de desenterrar o barbecue, só para provocar os vizinhos!

Nas vivendas com quintal ainda é o menos. Ao menos podemos ver a cara do vizinho para podermos odiá-lo como deve ser. E, se formos mesmo maquiavélicos, respondemos dizendo que, por "coincidência", aquele é o dia do ano em que decidimos tratar da relva do quintal e de polir os duendes de enfeite (não sei quanto a vocês, mas na minha vivenda de sonho há duendes a ornamentar o jardim). Tudo para sacar uma costeleta do barbecue do vizinho, que, complacente com o aborrecimento da nossa tarefa, e já que, acidentalmente, estamos ali mesmo ao lado, convida-nos para saborear um dos seus grelhados.

Já nos prédios é mais complicado. Não sabemos bem qual dos sacanas é que decidiu cometer aquela atrocidade e dificilmente conseguimos vislumbrá-lo para podermos praguejar maledicências. Tudo é frustração. O nosso almoço é pior e não podemos mirá-lo de forma autoritária, enquanto fazemos um exercício mental de criatividade para o insultar. Sim, que sabe bem mirar as pessoas dessa forma, mesmo que não seja para as confrontar. Os condutores bem o sabem. Quem é o anjinho que resiste a lançar esse olhar pela janela do passageiro para o palhaço que estamos finalmente a ultrapassar, depois de nos ter feito andar a 50 durante centenas de metros. Há poucas coisas mais libertadoras do que conhecer a cara de um imbecil e mirá-la com ar enfurecido. E é justamente o que não conseguimos fazer com o imbecil do prédio que decidiu fazer o churrasco no nosso dia de contenção alimentar. Depois admiram-se que haja tensão nas reuniões de condomínio. Que façam sujeira nas zonas comuns e que metam a publicidade na minha caixa de correio ainda posso aceitar, agora fazer churrascos nos dias de batata cozida... Isso é mais do que um só frágil humano pode suportar.

O que gente assim merecia era uma coisa que eu cá sei, e que envolve as fagulhas do barbecue.

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